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(trad. por Michael J. Schäfer)
Quem hoje em dia fala de “ócio” encontra-se
de saída numa posição de defesa. Ele se
defende contra uma oposição que, à primeira
vista, parece ser a mais forte. Isto não se torna mais
fácil pelo fato de que esta oposição não
é “um outro”, mas que se trata mesmo de um
diálogo interno. E, ainda pior, se alguém nos
pergunta, sem aviso prévio, seríamos incapazes
de dizer exatamente o que é que estamos defendendo. Se,
por exemplo, Aristóteles diz: Trabalhamos para ter ócio
- deveríamos dizer, para ser sinceros, que não
sabemos o que esta frase escandalosa quer dizer.
Acredito que nos encontramos nesta situação.
A primeira pergunta é: o que significa
ócio? O que quer dizer este conceito na grande tradição?
Parece-me certo tentar encontrar uma resposta falando em primeiro
lugar da força oposta, que se costuma chamar de “sobrevalorização
do trabalho”, embora se trate duma descrição
um tanto provisória. Trabalho pode significar diversas
coisas, pelo menos três. Trabalho pode dizer atividade
em geral. Trabalho pode, em segundo lugar, indicar esforço,
labuta, dificuldade. E, por último, existe a linguagem
cotidiana na qual trabalho indica uma atividade útil,
sobretudo útil para a sociedade. A qual das três
acepções nos referimos falando da “sobrevalorização
do trabalho”? Existe tanto a sobrevalorização
da atividade quanto a do esforço e do árduo e,
last but not least, a sobrevalorização da função
social. Exatamente este é o demônio de três
faces que cada um que começa a defender o ócio
tem de enfrentar.
A sobrevalorização da atividade
em geral. Trata-se da incapacidade de aceitar que simplesmente
aconteça algo; a inaptidão de receber e de admitir
suceder algo consigo mesmo. É a "atividade total"
da qual Goethe disse que por fim irá a falência.
A forma mais extrema na qual foi dita esta heresia até
agora se encontra numa frase de Hitler : "Cada atividade
tem sentido, mesmo o crime: ao contrário cada passividade
não tem sentido." Naturalmente temos aqui um pensamento
demente. Ele é simplesmente absurdo. Mas, acredito, formas
mais moderadas desta loucura fazem parte do mundo atual.
A sobrevalorização do esforço
e do difícil. Parece estranho mas também isto
existe. Até pôde-se dizer que a posição
do "bem comportado" cidadão moderno se baseia
largamente nesta sobrevalorização do custoso:
o bem é, segundo a sua natureza, difícil, e o
que não custa é sem valor ético. Schiller
ironizou esta tese num verso divertido contra Kant: "Gostaria
muito de servir ao amigo, mas infelizmente faço-o com
prazer. Isto me aborrece muitas vezes porque desta maneira não
sou virtuoso." Os "antigos" (com este termo designo
os grandes gregos Platão e Aristóteles como também
os grandes doutores da cristandade ocidental) acharam que o
bem não seria, graças à sua natureza e,
por conseqüência, sempre e necessariamente, custoso.
Eles sabiam que exatamente as mais sublimes formas da realização
do bem acontecem sempre sem esforços - porque faz parte
da sua natureza, do proceder do amor. Também as formas
mais elevadas do conhecimento, por exemplo: a idéia genial,
surgida qual um raio, bem como a verdadeira contemplação,
não são formas de "trabalho intelectual".
Também acontecem sem esforço, porque pertence
à sua natureza serem dádiva. "Dádiva"
- talvez se trate de uma palavra-chave. Quem medita sobre a
estranha predileção pelo difícil que marca
o rosto do homem contemporâneo, a prontidão de
agüentar a dor (o que, na minha opinião, é
mais característico do que a muito criticada queda pelo
prazer!) – quem pensa nisto se encontra de repente diante
da pergunta: Será possível que a causa mais profunda
disto seja a rejeição de receber algo de graça,
seja de quem for?
A sobrevalorização da função
social. Não são necessárias muitas palavras
para demonstrar que esta é uma característica
dominante da sociedade moderna. Não devemos considerar
somente os totalitários "planos de cinco anos",
nos quais não é o planejamento o próprio
mal, mas a pretensão de ser a única regra para
o valor de toda a vida, não somente da produção
industrial, mas igualmente para o aproveitamento do tempo de
lazer nas horas vagas do indivíduo. Mesmo no mundo não-totalitário,
a ditadura do meramente útil pode ser fortemente presente.
Neste ponto, deve ser lembrada uma antiga distinção
entre "artes liberales " e "artes serviles”,
entre atividades "livres" e "servis". Esta
distinção quer dizer que existem, num lado, atividades
humanas que possuem o seu sentido em si mesmas e, noutro lado,
aquelas que servem a um fim que fica além delas, quer
dizer, que são somente úteis. Pela primeira vista
parece ser um pensamento bastante antiquado e caturra. Em verdade
trata-se duma coisa politicamente atual. Se a pergunta: "Existe
uma atividade livre?" for traduzida para a linguagem do
mundo no qual domina o trabalho, então ela será
formulada assim: existe uma atividade humana a qual, por sua
natureza, diante da norma dum plano qüinqüenal, nem
necessita de uma justificação, nem seria capaz
de dar uma tal justificativa? Os antigos responderam a esta
pergunta definitivamente com um "sim". A resposta
do mundo no qual domina o trabalho é da mesma maneira
enérgica: "não", o homem é totalmente
"funcionário". Uma atividade "livre"
que não serve ao socialmente útil é indesejada
e conseqüentemente deve ser "liquidada".
Dirigindo o olhar, depois desta tríplice
sobrevalorização do trabalho, ao conceito "ócio",
nota-se logo: neste mundo do trabalho não há lugar
para ele. Ele não é somente absurdo, mas moralmente
suspeitoso. E, de fato, aqui existe uma incompatibilidade absoluta.
A idéia do ócio é diametralmente oposta
à idéia totalitária do "trabalho"
e isto sob os três aspectos dos quais falei.
Contra a absolutização da
atividade. Ócio é exatamente "não-atividade".
Ele é uma forma do silêncio. Ócio é
exatamente aquela forma do silêncio que dispõe
para ouvir algo. Somente o silencioso é capaz de ouvir.
O ócio é a atitude da mera submersão receptiva
na realidade; é a abertura da alma que, somente ela,
recebe os grandiosos conhecimentos, tornando-se feliz, o que
nós nem sequer pelo "trabalho intelectual"
poderíamos alcançar.
Contra a sobrevalorização
do esforço. O ócio é uma atitude de celebração.
Celebrar significa o contrário de esforço. Quem
desconfia categoricamente da facilidade está tanto incapaz
do ócio como de celebrar uma festa. A festa, porém,
necessita de outra componente, da qual falaremos logo a seguir.
Contra a sobrevalorização
da função social. Ócio indica exatamente
a retirada do indivíduo da função social.
No entanto, o ócio não deve ser confundido com
o intervalo. O intervalo, independentemente de durar uma hora
ou três semanas, indica repouso do trabalho para o trabalho;
existe por causa do trabalho. Ócio, porém, é
algo totalmente diferente. O sentido do ócio não
consiste no funcionamento perfeito do homem, mas sim que ele,
dentro da função social, não deixe de ser
homem, quer dizer, que ele fique capaz de olhar além
do espaço limitado pela função, contemplando
festivamente o mundo como uma totalidade e realizando a si mesmo
como um ser projetado para o mundo como um todo – numa
atividade livre, ou seja, que possua o seu sentido em si mesmo,
isto é, numa ação "não-engajada".
A verdadeira cultura não prospera
senão fundamentada no ócio – contanto que
se entenda como "cultura" tudo o que ultrapassa as
meras necessidades da vida, sendo, entretanto, mesmo assim,
imprescindível para a plena realização
da existência humana. Mas se a cultura vive do ócio,
de que vive então o ócio? Como o homem se torna
capaz de "fazer ócio", como os gregos o entendem?
O que se pode fazer para evitar que o homem se torne um mero
"trabalhador", limitado somente a suas funções?
Confesso ser incapaz de responder estas
perguntas com uma instrução concreta e praticável.
A própria dificuldade é de tal natureza que não
pode ser remediada por uma simples decisão, mesmo que
bem intencionada. Ainda assim pode-se mostrar o porque disto.
Sabe-se que os médicos, há algum tempo, chamam
a atenção para a importância do ócio
para a saúde - no que certamente têm razão.
Mas é impossível "praticar o ócio"
para manter a saúde ou para recuperar esta, como também
para "salvar a cultura"! Existem coisas que somente
se realizam, quando se leva em conta que têm sentido em
si mesmas. É impossível realizá-las "para
que" algo aconteça (é impossível amar,
por exemplo, um ser humano "para que" ou "a fim
de que"). Certas hierarquias não são conversíveis;
isto não somente seria inadequado, mas simplesmente não
se conseguiria realizá-lo.
A respeito da nossa pergunta, isto significa
o seguinte: se o ócio não é realizado como
algo que faz sentido em si mesmo, então se torna impossível
“realizá-lo”. Aqui de novo deve-se falar
da festa. Numa festa, se reúnem todos os três elementos
dos quais se constitui o conceito do ócio: primeiro,
a não-atividade; segundo, a falta do esforço,
e terceiro, o transgredir da função cotidiana
no trabalho.
Cada qual sabe da dificuldade do homem
contemporâneo de celebrar uma festa. Ora, esta dificuldade
é idêntica à incapacidade de realizar o
ócio. A causa pela qual as festas fracassam é
a mesma pela qual o ócio fracassa.
Nesta altura, um pensamento torna-se inevitável,
o que, como experimentei muitas vezes, desagrada muito à
maioria dos homens. Este pensamento é, brevemente, o
seguinte: celebrar uma festa significa exprimir a aceitação
do mundo como um todo numa maneira não-cotidiana. Quem
não considera a realidade no fundo como "boa"
e "em ordem", é incapaz de celebrar uma festa,
tão pouco quanto de poder "fazer ócio".
Isto significa: o ócio está ligado à condição
de que o homem aceite o mundo e a sua própria natureza.
E agora vem o tão escandalizante, como inevitável:
a mais sublime maneira de exprimir a aceitação
do mundo como um todo possível de se pensar é
o louvor a Deus, a exaltação do Criador, o culto.
Com isto também se indica a última raiz do ócio.
É preciso prepararmo-nos para o
fato de que a humanidade fará um enorme esforço
para escapar às conseqüências desta conclusão,
por exemplo, pela tentativa de criar festividades artificiais,
quer dizer, evitando a última e verdadeira aceitação
do mundo. Em lugar disto produzem, não obstante, com
imenso esforço, a impressão duma celebração
genuína, apoiada e fomentada, quem sabe, pelo poder político,
encenando grandiosas pompas exteriores. Na realidade, tal aproveitamento
das horas vagas pelas pseudo-festas representa uma forma ainda
mais estressante do trabalho.
Seria um engano acreditar que esta tese
de que toda festa se baseia no culto, e da origem do ócio
e da cultura no culto, seja uma tese especificamente cristã.
Tal juízo talvez provenha daquilo que se costuma chamar
de secularismo: nem tanto a "descristianização",
quanto a perda de alguns conhecimentos fundamentais que fazem
parte integrante do acervo tradicional natural da sabedoria
da humanidade. Parece-me que a este acervo pertence também,
a tese do ócio e do culto. Platão, por exemplo,
grego da era pré-cristã, formulou-a já
como homem de idade, numa grandiosa imagem mítica. Platão
pergunta se não existe para o gênero humano, nascido
para o trabalho e a labuta, folga alguma. E ele responde: Sim,
existe uma folga: "Os deuses, tendo pena do gênero
humano, nascido para a labuta, deram a ele como folga as repetidas
festividades cultuais e, como companheiros da festa, as musas
e os guias delas, Apollon e Dionísio, para que tomassem,
nutrindo-se na convivência festiva com os deuses, forma
aprumada e direção." * Um outro grande grego,
Aristóteles, mais "crítico" do que seu
mestre Platão e, como bem se sabe, pouco inclinado a
falar em imagens míticas - mesmo Aristóteles formulou
este conhecimento à sua maneira sóbria. Na Ética
a Nicômaco, na qual se encontra a já citada frase
("Trabalhamos para ter ócio"), neste mesmo
livro está escrito que, viver a via do ócio seria
impossível para o homem, enquanto homem, mas sim, enquanto
algo divino vive nele.
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